Tema 1 – Equidade e acesso ao saneamento
Coordenador: Alceu Guerios Bittencourt – Ex Presidente Nacional da ABES e Cobrape
Coordenador adjunto: Mauricio Canton Pladevall – Cobrape
As características territoriais afetam fortemente as condições de acesso ao saneamento. Áreas de ocupação informal nas cidades, que usualmente apresentam estrutura urbana irregular, são as de mais difícil atendimento e geralmente implicam custos mais elevados. Áreas rurais são outras que apresentam dificuldade, pela baixa densidade e grandes distâncias.
Nessas áreas de mais difícil atendimento, grande parte dos habitantes usualmente pertence a estratos de mais baixa renda, adicionando dificuldades econômicas aos problemas físico-territoriais, o que torna o exercício do direito a água e serviços sanitários de qualidade um grande desafio em muitos países.
Serviços inexistentes, ou parciais, provocam ainda grande impacto ambiental, aumentando a poluição e comprometendo áreas sensíveis, como mananciais. As mudanças climáticas vêm agravando esse quadro de degradação, ao mesmo tempo em que acentuam os problemas para a população residente, com o aumento de escorregamentos e inundações, e de insegurança hídrica por escassez em estiagens.
A discussão deste tema buscará, além de discutir como estender o atendimento nessas áreas de maior dificuldade, debater questões como qualidade, permanência e resiliência dos serviços.
Tema 2 – Ciclo sustentável do saneamento: esgoto, reuso e economia circular
Coordenador: Gustavo Possetti – Coordenador da Câmara Temática de Tratamento de Esgoto da ABES e Sanepar
Coordenadora adjunta: Maria de Lourdes Florêncio ABES-PE e Universidade de Pernambuco
Membros:
Ana Soares – Cranfield University/IWA
Daniel Nolasco – IWA/Nolasco Associados
Álvaro Diogo – ABES
André Bezerra dos Santos – UFC/ABES
Cesar Rossas Mota Filho – UFMG/ABES/INCT ETEs Sustentáveis
Renan Utri – Andregetto Huber
Jules Van Lier – TU Delft
Zhen Yang – Nanjing Normal University
O Tema 2 do BWW 2026 aborda o saneamento, a partir do esgotamento sanitário, como pilar estruturante da sustentabilidade, da segurança hídrica e energética e do desenvolvimento urbano. A abordagem enfatiza a recuperação de recursos, a descarbonização dos sistemas, a incorporação qualificada da inovação e a consolidação de modelos circulares aplicados ao setor. O tema está alinhado às políticas públicas setoriais em escala global, às agendas de meio ambiente e clima, à Agenda 2030 e aos princípios ESG, reforçando o papel estratégico do saneamento na transição para sistemas mais eficientes e resilientes.
A proposta contempla a evolução das Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) como biofábricas e unidades de produção sustentáveis, capazes de superar a função convencional de remoção de cargas poluidoras e converter passivos socioambientais em ativos estratégicos. Nesse contexto, são discutidos casos práticos e rotas tecnológicas para o reúso de água, a produção de energia limpa, a recuperação de nutrientes e a obtenção de produtos de alto valor agregado, como o hidrogênio. Essas abordagens contribuem para a mitigação de impactos ambientais, a otimização do uso de recursos naturais, o aprimoramento do desempenho operacional e o fortalecimento da universalização dos serviços de saneamento.
O tema abrange tecnologias de alta eficiência e baixo impacto ambiental, práticas operacionais avançadas, métodos de otimização de processos, retrofits inteligentes e soluções progressivas que viabilizam a economia circular no saneamento, considerando de forma integrada os aspectos técnicos, regulatórios, institucionais e financeiros. Destaca-se, ainda, a integração do saneamento com serviços ecossistêmicos e soluções baseadas na natureza, ampliando sua contribuição para a adaptação às mudanças climáticas, a mitigação de emissões e o aumento da resiliência das cidades.
O debate prioriza experiências aplicadas, cooperação técnica e institucional e a construção de agendas replicáveis, promovendo o diálogo qualificado entre utilities, setor privado, startups, academia, organismos internacionais e instituições públicas, em consonância com os eixos estratégicos e o posicionamento internacional do BWW 2026.
Tema 3 – Desafios regulatórios
O alcance da universalização dos serviços de saneamento está intrinsecamente ligado à capacidade de adaptação e inovação dos marcos regulatórios. Este tema geral, “Desafios Regulatórios e Contexto”, propõe uma análise estratégica e internacional sobre os pilares que sustentam a expansão e a resiliência do setor de água e saneamento em um mundo de crescentes incertezas.
A primeira sessão, “Reequilíbrio e Sustentabilidade de Contratos“, aborda a necessidade crítica de garantir a segurança jurídica e a atratividade de investimentos de longo prazo. Em um cenário global marcado por instabilidade macroeconômica e, sobretudo, pelos impactos das mudanças climáticas, o debate se concentra em como os contratos de concessão e PPPs podem incorporar mecanismos de resiliência econômica e compartilhamento de riscos. Serão exploradas as melhores práticas internacionais para o reequilíbrio econômico-financeiro, visando proteger a modicidade tarifária e, simultaneamente, assegurar a viabilidade dos operadores e o cumprimento das metas de universalização.
A segunda sessão, “Regulação do Saneamento Rural e Governança Multinível”, foca no desafio da inclusão, essencial para o princípio de “não deixar ninguém para trás”. A discussão se aprofunda na necessidade de adaptar a regulação para as especificidades das áreas rurais e comunidades isoladas, onde soluções descentralizadas são a regra. O eixo central é a Governança Multinível, examinando modelos internacionais de coordenação entre diferentes esferas de governo e a integração de modelos de gestão comunitária. O objetivo é identificar estratégias regulatórias que promovam a sustentabilidade técnica e econômica das soluções alternativas, garantindo a qualidade do serviço e a resiliência frente aos eventos climáticos extremos.
Em conjunto, as sessões oferecem uma visão abrangente sobre como a regulação moderna deve atuar como um agente de transformação, equilibrando a atração de capital, a inovação tecnológica e a equidade social para acelerar o acesso universal e sustentável ao saneamento.
Tema 4 – Saneamento digital e operações inteligentes: inovação para eficiência e transparência
A digitalização do saneamento representa uma mudança estrutural no setor, deslocando o foco de ações reativas para modelos de operação preditiva, gestão em tempo real e tomada de decisão baseada em dados de alta qualidade. O avanço de tecnologias como gêmeos digitais, inteligência artificial, machine learning e Internet das Coisas (IoT) viabiliza a otimização de recursos, a redução de perdas, o aumento da resiliência operacional e o fortalecimento da transparência frente à sociedade e às instituições públicas.
Esse movimento é impulsionado não apenas pela evolução tecnológica, mas também pela consolidação de marcos de legislação de inovação que criam condições jurídicas para a experimentação, o desenvolvimento tecnológico e a cooperação entre empresas de saneamento, universidades, institutos de pesquisa, startups e centros de inovação. A legislação de inovação, aliada ao marco legal das startups e aos instrumentos de fomento à pesquisa aplicada, amplia a capacidade do setor de testar soluções, acelerar protótipos e incorporar tecnologias emergentes à operação cotidiana com segurança jurídica e escalabilidade.
Nesse contexto, estruturas tecnológicas integradas de gestão operacional tornam-se o núcleo da operação moderna, unindo monitoramento contínuo, controle automatizado e capacidade de simulação para avaliar cenários e antecipar falhas. Plataformas interoperáveis, com padrões de dados abertos, sustentam análises preditivas e prescritivas que orientam o planejamento de investimentos, a priorização de manutenção e a gestão adaptativa da infraestrutura, fortalecendo a eficiência e a governança técnica.
A implementação bem-sucedida desse novo paradigma exige não apenas tecnologia, mas engenharia de processos, revisão de fluxos operacionais, capacitação das equipes e alinhamento institucional com os instrumentos legais que sustentam a inovação. Experiências internacionais demonstram que utilities que articulam digitalização e legislação de inovação alcançam ganhos expressivos de eficiência, confiabilidade e transparência, com impacto direto na sustentabilidade do negócio e na qualidade dos serviços prestados.
Tema 5 – Cooperação global e diplomacia da água: conexões para um futuro compartilhado
Coordenador: Marcel Costa Sanches – Presidente Nacional da ABES e Diretor da Sabesp
Coordenador adjunto: Luis Eduardo Grisotto – Coordenador da Câmara Técnica de Recursos Hídricos da ABES-SP e Cobrape
Em tempos de mudanças climáticas, crises hídricas e eventos extremos é cada vez mais importante considerar a governança das águas sob uma perspectiva mais ampla e global, principalmente porque os conflitos e disputas multilaterais tendem a se acirrar nos próximos anos.
Os desastres relacionados às inundações ou secas extremas se intensificaram nas últimas décadas em todo o mundo, se tornando uma ameaça crescente ao ambiente, à vida e à economia de muitos países. Eventos internacionais recentes, tais como o Fórum Mundial da Água (sobretudo as últimas três edições, no Brasil, Senegal e Indonésia), a Conferência da ONU sobre a Água (em 2023), a COP30 (Belém do Pará, 2025), as Conferências da UNESCO, FAO e ONU-Habitat, entre tantos outros, destacam fragilidades, tensões e riscos relacionados à segurança hídrica atual e futura, reforçando que cerca de metade da população mundial ainda experimenta severa escassez de água durante pelo menos parte do ano (IPCC, 2023 apud UNESCO 2024) ou, ainda, que o estresse hídrico tem implicações importantes na estabilidade econômica e social, cujos déficits podem estar ligados a cerca de 10% do aumento das migrações em todo o mundo. No Brasil, igualmente, há desafios continentais de grandes dimensões, uma vez que possui divisas com outras 10 nações e, também, 60% do seu território inserido em bacias hidrográficas que se estendem aos países vizinhos, totalizando mais de 80 rios fronteiriços ou transfronteiriços.
Tais questões remetem a reflexões mais abrangentes em torno de temas estratégicos, tais como “diplomacia das águas”, convenções e acordos bilaterais ou multilaterais, financiamentos internacionais ou governança colaborativa e compartilhada das águas, enquanto elementos essenciais para promover o uso sustentável, equitativo e pacífico dos recursos hídricos transnacionais.
Esses aspectos serão explorados e aprofundados no presente painel, trazendo diversas experiências brasileiras e internacionais, lições aprendidas, reflexões e conhecimentos sobre a gestão integrada de bacias transfronteiriças, segurança hídrica e controle da poluição, desigualdade de acesso aos recursos hídricos, pressões sobre ecossistemas, mecanismos de governança, participação social e transparência, adaptação às mudanças climáticas e resiliência, planejamento inter-regional, cooperações e acordos multilaterais, intercâmbio técnico-científico e inovação, entre outros temas de interesse estratégico. Com isso, pretende-se contribuir com as discussões e alternativas para a construção de soluções colaborativas e sustentáveis em nível internacional.
Tema 6 – Adaptação climática e resiliência hídrica: soluções para um mundo em mudança
Coordenadora: Karen Amaral – Diretora da ABES-PR e UFPR
Coordenadora adjunta: Mara Ramos – Sabesp
Engenharia da resiliência hídrica
A intensificação e a maior frequência de eventos hidrológicos extremos associados às mudanças climáticas impõem desafios inéditos ao planejamento, à engenharia hídrica e ao setor de saneamento. Nesse contexto, a engenharia da resiliência hídrica emerge como abordagem estratégica para o planejamento, o projeto, a adaptação e a operação de infraestruturas capazes de responder a cenários de incerteza, reduzir vulnerabilidades e garantir a continuidade dos serviços essenciais.
Este painel abordará como princípios de resiliência, flexibilidade, robustez e capacidade adaptativa vêm sendo incorporados à engenharia de sistemas hídricos em diferentes escalas territoriais. Serão discutidas experiências práticas e abordagens técnicas aplicadas a sistemas de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos, drenagem urbana, controle de cheias e gestão integrada de recursos hídricos, com ênfase na adaptação de infraestruturas existentes e na concepção de soluções mais resilientes frente a secas, inundações e falhas sistêmicas.
O debate reunirá perspectivas complementares da academia, de operadores de serviços, de reguladores, de instituições de planejamento e de especialistas internacionais, promovendo a articulação entre fundamentos conceituais e aplicações práticas. A sessão buscará evidenciar como a engenharia pode apoiar processos decisórios mais informados, contribuir para estratégias de adaptação climática e fortalecer a segurança hídrica em um cenário de mudanças ambientais aceleradas.
Planejamento adaptativo e gestão de risco climático
As mudanças climáticas ampliam a complexidade do planejamento territorial e da gestão de riscos, exigindo abordagens capazes de lidar com incertezas, múltiplos cenários e impactos desiguais no espaço e no tempo. Nesse contexto, o planejamento adaptativo e a gestão de risco climático emergem como instrumentos fundamentais para orientar decisões públicas e técnicas mais robustas, flexíveis e socialmente justas.
Este painel propõe uma abordagem inovadora, estruturada a partir de dilemas reais de tomada de decisão enfrentados por gestores, planejadores e técnicos. Em vez de exposições tradicionais, os painelistas responderão a questões-problema comuns, explorando critérios de priorização, trade-offs, limitações institucionais e regulatórias e estratégias de ajuste contínuo frente a riscos climáticos crescentes.
A sessão buscará evidenciar como diferentes perspectivas técnicas, institucionais e territoriais lidam com a incerteza climática, promovendo um diálogo aplicado entre planejamento, engenharia, governança e políticas públicas. O debate contribuirá para a construção de referências práticas e conceituais que apoiem processos decisórios mais resilientes e alinhados aos desafios atuais e futuros.
Soluções baseadas na natureza e proteção de mananciais
A degradação de mananciais e a intensificação das pressões climáticas e antrópicas sobre os recursos hídricos exigem abordagens integradas que articulem conservação ambiental, planejamento territorial e gestão da água. Nesse contexto, as soluções baseadas na natureza têm se consolidado como estratégias relevantes para a proteção de mananciais, a melhoria da qualidade da água, a regulação hidrológica e o fortalecimento da resiliência hídrica.
Este painel propõe uma abordagem inovadora, organizada a partir do percurso da água na bacia hidrográfica e orientada por evidências e resultados. Cada painelista abordará um trecho específico do território, apresentando problemas enfrentados, soluções baseadas na natureza adotadas e evidências observadas quanto à sua efetividade.
A sessão buscará demonstrar como intervenções distribuídas ao longo da bacia se conectam e se reforçam mutuamente, contribuindo para a proteção de mananciais e para a segurança hídrica em diferentes escalas. O debate reunirá perspectivas técnicas, institucionais e científicas, promovendo uma visão sistêmica e aplicada das soluções baseadas na natureza no contexto da adaptação climática.
Tema 7 – Água segura: saúde e sustentabilidade
Coordenador: Josivan Cardoso Moreno – Secretário Geral da ABES e Sabesp
Coordenadora adjunta: Kely Boscato Pereira – ABES-RS
A água segura é condição essencial para a proteção da saúde humana, a redução das desigualdades e a promoção do desenvolvimento sustentável. Entende-se por água segura aquela que não representa risco significativo à saúde ao longo de toda a vida de consumo, considerando critérios físicos, químicos, microbiológicos e emergentes, associada à disponibilidade em quantidade suficiente, acesso contínuo, universal e economicamente acessível. Em um contexto de intensificação das mudanças climáticas, urbanização acelerada e pressão crescente sobre mananciais, garantir água segura tornou-se um desafio estratégico para governos, prestadores de serviço e sociedade.
Este painel abordará a água segura como eixo estruturante das políticas públicas de saneamento e saúde, em consonância com a Agenda 2030 e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com destaque para os ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ODS 6 (Água Potável e Saneamento) e ODS 13 (Ação Climática). Serão discutidas experiências nacionais e internacionais relacionadas à governança da água, marcos regulatórios, inovações tecnológicas e mecanismos de cooperação multilateral voltados à garantia do acesso universal à água de qualidade, à proteção e recuperação dos mananciais e ao fortalecimento da resiliência dos sistemas hídricos frente aos impactos das mudanças climáticas.
O painel destacará o Plano de Segurança da Água como instrumento central de abordagem preventiva e integrada, voltado à identificação de perigos, avaliação e gestão de riscos desde a captação até o consumo, fortalecendo a resiliência dos sistemas e a confiança da população. O debate buscará identificar boas práticas, desafios comuns e oportunidades de articulação entre setor público, organismos internacionais, academia, setor privado e sociedade civil, contribuindo para soluções concretas e escaláveis para a garantia do direito humano à água segura.